quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Alguns Fundamentos Históricos!!!



BRUXARIA E PAGANISMO


Nos meios de comunicação, em boa parte da literatura específica sobre o assunto e, em especial, nos conceitos adquiridos pela maioria das pessoas que travam seus primeiros contatos com o tema, as palavras bruxaria e Wicca apresentam-se, se não como sinônimos, pelo menos com significados bastante semelhantes.
Embora o uso, no decorrer dos últimos anos, tenha consagrado essa semelhança, chegando mesmo alguns autores a definir Wicca como "a bruxaria moderna", é importante perceber essa designação pode não ser correta e, poderia, mesmo, ser evitada. Existe uma série de motivos para isso, que mostraremos ao longo dessa primeira parte do nosso curso. Nesse primeiro momento, buscaremos apenas mostrar no que consiste a figura da bruxa, dentro das concepções religiosas e míticas da humanidade, e levantar algumas questões acerca dessa figura.
A bruxa surge em basicamente todos os folclores: não adianta apelarmos, nesse caso, para as raízes da palavra em português, sua etimologia, para compreendermos o seu significado, pois mesmo a origem desse termo é incerta. O que existe de definitivo, nesse caso, é um conjunto de atributos, de qualidades, que definem um determinado personagem mais do que, simplesmente, o seu nome. Nas inúmeras línguas do mundo, vivas ou mortas, esse personagem ganhou um nome que, ao ser traduzido para o português, resulta "bruxa". Aquele conjunto de atributos, qualidades ou práticas comuns a essas bruxas de milhares de nomes é, por sua vez, chamado de "bruxaria", em português.
No entanto, ao contrário do que se tem querido divulgar ultimamente, esse conjunto de atributos que definem uma bruxa é, desde a mais remota antiguidade e em todo o mundo, caracterizado pelaprática do "mal", ou pelo menos de malefícios diversos, através de meios que incluem desde o uso da magia ou de algum conhecimento secreto com propósitos egoístas ou nefastos, até a associação com espíritos malignos ou, mais modernamente,demônios.
"Bruxa", portanto, nunca foi um termo utilizado para designar sacerdotes ou sacerdotisas de uma determinada religião, ou pessoas que usavam seus conhecimentos para práticas benfazejas. Sempre foi um termo pejorativo, ou que inspirava temor. As pessoas chamadas de bruxas, ou acusadas de bruxaria, foram, ao longo dos milênios da civilização, justamente os "bodes expiatórios", a quem se atribuíam àqueles malefícios, reais ou imaginários, que afligiam o povo sem que este pudesse compreendê-los.
O antropólogo Evans-Pritchard1 nos conta o caso por ele observado entre os Azande, um povo africano. Um jovem havia se ferido no pé ao caminhar pela mata, e essa ferida infeccionara e demorava a cicatrizar. O fato da ferida infeccionar não perturbava o jovem, pois isso fazia parte do seu cotidiano. O que lhe causava espanto, e lhe fazia atribuir aquilo à bruxaria, era justamente o fato dele, habituado a caminhar descalço pela mata, ter se distraído a ponto de ferir o pé. Portanto, os males que fugiam do habitual, certamente eram obra de bruxos.
A contraparte da bruxa ou do bruxo, ao longo das eras, foi à figura do "curandeiro", ou do "xamã", ou ainda do mago ou feiticeiro. A estes era atribuído o poder de utilizar, muitas vezes, aqueles mesmos métodos das bruxas, mas para o bem da comunidade. Até mesmo a Inquisição, como veremos em outra parte, fez uma nítida distinção entre "feiticeiros" ou "curandeiros" e bruxas, em um determinado momento da sua existência, tolerando os primeiros e perseguindo as últimas2.
Fazendo um apanhado ao longo das diversas tradições religiosas e folclóricas que temos notícia, portanto, podemos dizer que a bruxa foi, sempre, aanti-religiosa, ou anti-sacerdotisa, e que a bruxaria sempre figurou, simbolicamente, como a próprianegação da religião, ou daqueles valores associados ao bem-comum. Justamente por causa disso é que o termo foi usado, durante os séculos de perseguição católica, para designar suas vítimas, mas esse é um assunto ao qual retornaremos em outro momento desse curso.
Se deixarmos de lado, no entanto, as questões puramente semânticas, poderemos distinguir na literatura um outro aspecto da bruxa: a iniciadora, aquela que, por sua atuação, obriga a mudança. Deve ficar claro, no entanto, que essa interpretação não surge no seio das concepções populares: ela surge através da manipulação poética dessas concepções3.
No conjunto dos mitos gregos, por exemplo, que nos foi legado através da poesia épica, temos as figuras de Circe e Medéia. A primeira podia transformar os homens em animais; a segunda, cozinhava as pessoas em seu caldeirão para rejuvenescê-las, ou curá-las. Essas "bruxas" surgem, claramente, como transformadoras, como símbolos da provocação de mudanças internas, inevitáveis para que um obstáculo seja superado ou para que um novo estado de consciência seja alcançado. Ulisses não deixaria jamais a ilha de Circe e retornaria a Ítaca, se não percebesse que seus homens haviam sido transformados em porcos4.
Nos contos de fadas, que tomaram forma próxima da que conhecemos na Idade Média, mas cujas raízes são imemoriais, a figura da bruxa é sempre presente e, de forma geral, surge ainda nesse papel de transformadora, ou de provocadora de transformações. Ao confrontar o homem com seus medos, com seus preconceitos ou com a morte, ela o obriga a "renascer", a transformar-se e seguir em frente com sua missão.
Essa confrontação com a morte e conseqüente renascimento está enraizada, no entanto, em outro conjunto de concepções que foram, mais ou menos modernamente, agrupadas e designadas sob o rótulo geral de paganismo.
Embora a palavra "pagão" tenha adquirido, já há muito tempo, o significado de "não-cristão", ou simplesmente de "não-batizado", seu significado original refere-se aos habitantes do campo, aos agricultores, cujo conjunto de concepções próprias os distinguia dos habitantes das cidades. Para essas pessoas, a idéia de sazonalidade, de um tempo que envolvia ciclos de morte e renascimento, era muito presente.
A confrontação com a morte, na forma de períodos de inverno, ou de seca, era cotidiana, bem como era cotidiana a idéia de que, após esse período de morte aparente, um novo período de vida se seguiria, num ciclo infindável. É necessário compreender, no entanto, que mesmo nessas culturas generalizadas como pagãs, as bruxas tinham o seu papel de confrontação, de desafio, mas era dos sacerdotes, ou do povo, a responsabilidade de cumprir os ritos necessários para garantir o próximo ciclo. As bruxas, nesse caso, eram o que deveria ser enfrentado, o que instigava a mudança, mas era justamente a sua derrota que assegurava a sobrevivência. Elas representavam o individualismo, em sociedades onde a coletividade era fator preponderante para a sobrevivência.Voltaremos, certamente, a esses temas em outros momentos deste curso. No entanto, a partir dessas primeiras noções, podemos já esboçar um contrasenso: a Wicca, ao invés de ser "uma espécie de bruxaria", seria antes uma doutrina que se aproxima dos cultos de manutenção e sazonalidade que, por suas características essenciais, evitavam a bruxaria e seus efeitos.
A partir de que princípios, então, se estabeleceu a idéia que a Wicca seria uma "religião da bruxaria", e que aquelas pessoas que foram supliciadas pela Inquisição foram chamadas de bruxas por serem pagãs?
Este será, justamente, o assunto do próximo tópico do nosso curso. Por enquanto, devemos reter as duas idéias principais, e refletir sobre elas: paganismosignifica manutenção de um equilíbrio natural, ebruxaria é justamente o desafio, a quebra desse equilíbrio.
Lançamos, portanto, dois pontos para reflexão, duas questões que deverão continuar presentes durante toda essa primeira parte do curso:
A Wicca é "bruxaria" porque rompe com padrões e conceitos pré-estabelecidos,
em favor de uma ordem social relativamente distinta?
ou
A Wicca é "paganismo" porque busca manter padrões e conceitos atemporais,
relacionados a valores que são, por natureza, perpétuos?

Notas:1 Evans-Pritchard, E. E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. 2 ver, a esse respeito, Nogueira, Carlos R. F. O Nascimento da Bruxaria. São Paulo: Imaginário, 1995.3 Em relação à interpretação literária da figura da bruxa, agradeço os esclarecimentos e a pesquisa de Ana Duarte.4 Existem inúmeras traduções e publicações da Odisséia. Aconselhamos, em especial, a tradução de Carlos Alberto Nunes, publicada pela Ediouro, por ter preservado a métrica do original grego.
Fonte: Curso de Wicca(Jan Duarte)

Escrito por Carolina Rego às 00h46 em 12\08\2009 no Magicando...

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